Confissão pública
No discipulado, Deus começou a alinhar peças antigas da nossa história. Lembrei, ao lado do João, das “palavras” que ele recebia nas viagens do funk: “Deus te deu um dom.” Só que, agora, a luz estava acesa. Entendemos que dom não é vitrine para desejos, é altar para a glória de Deus. Por isso, os shows pararam, as músicas cessaram, o palco ficou para trás. Ficou só a dívida e a decisão de viver para Cristo.
Foi justamente aí que chegou o convite da Netflix para um evento de Sintonia. Não como personagem, mas como Jottapê. O João agradeceu e explicou: “Eu saí desse mundo. Entreguei minha vida a Cristo.” Veio a resposta fria de contrato: ele era obrigado a comparecer. Nós nos olhamos e fizemos o que aprendemos a fazer primeiro, oramos. “Senhor, não queremos isso, mas não podemos comprar outra briga legal.” Deus respondeu simples e firme: “Eu vou fazer algo naquele lugar.
Vinte e um dias para o evento. Justo quando tínhamos começado um Jejum de Daniel de 21 dias. Selou nosso coração. Em cada oração, Deus ia dando a estratégia, as palavras, o momento, a postura. E o recado ficou nítido: “Vocês vão anunciar.” O palco que antes tinha trevas seria púlpito, a boca que cantou vaidade declararia vida nova.
O João imaginou a frase no telão: “Não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim.” (Gl 2:20). Mas o Espírito insistia: “Você precisa ter isso em mãos.” Falamos com o pastor San, ele sugeriu que fizéssemos uma faixa, e encomendamos. Eu seria a responsável por entregá-la no momento certo. Pequeno ato, obediência enorme.
Chegou o dia, Memorial da América Latina, cerca de 15 mil pessoas. O San foi com a camiseta da equipe, “disfarçado” de técnico, na verdade, nosso intercessor. Eu fiquei colada no João, em paz e com as mãos tremendo só de leve. Antes de entrar, o João confirmou com a produção: “Qual o mínimo do contrato?, seriam 15 minutos.  Ele faria 14. O último show, para que o anúncio ocupasse os segundos finais.
O evento se chamava “Último Baile” e de fato aquele seria o nosso último baile. Naquele evento eu poderia ter dançado, mas não conseguiria dançar daquela forma. Eu fiquei na lateral do palco, orando em silêncio. Quatorze minutos. O João respirou, pegou o microfone e falou o que tínhamos orado tantas vezes juntos: 
O que vocês viram foi o meu último baile. Corri atrás de fama e dinheiro pra encher um vazio. Hoje esse vazio não existe mais.”
Vim até ele e entreguei a faixa. Ele ergueu com as duas mãos. Alto, nítido, sem volta.
“NÃO VIVO MAIS EU, MAS CRISTO VIVE EM MIM!”
Eu senti a atmosfera mudar. Estávamos preparados para as vaias, mas Jesus não permitiu a humilhação. Vi jovens chorarem, mãos se levantarem, uma oração tímida nascer no meio do som pesado. Ali, diante dos olhos que o aplaudiram por outros motivos, o João se levantou por um motivo. O palco virou altar; o “show”, chamado. E eu entendi meu papel, eu não preguei, não cantei, não conduzi a multidão, segurei a faixa na hora certa e guardei o ambiente com oração. Foi o suficiente para Deus acender um incêndio santo.
Depois, o vídeo correu o país. Muita gente achou que a conversão tinha acontecido naquela noite. Eu sempre faço questão de dizer, aquilo foi só o anúncio público de um processo de mais de dois anos, feito de jejum, Bíblia, discipulado, confrontos, libertações. Nós chamamos esse processo de forja.
Forja é um lugar quente, desconfortável, onde o ferro se torna útil. Foi ali que Jesus moldou o João e a mim também. Ele quebrou vaidades, silenciou vícios, reposicionou o dom. Cada “não” aos palcos antigos foi um “sim” ao novo altar. Cada madrugada em oração foi na companhia do Grande Ferreiro. Quando me veem entregando uma faixa, poucos sabem quantas vezes eu entreguei o meu medo antes dela, e quantas vezes Deus me devolveu coragem.
Este livro, assim como o livro “Um Homem Na Forja” não tem “conclusão”, por dois motivos com os quais eu concordo como esposa:
O primeiro é que a forja continua. Todos os dias Deus toca, alinha e corrige para parecermos com Jesus a caminho da eternidade. Eu vejo isso no olhar do João quando ele recusa aplausos fáceis, vejo em mim quando escolho ser coluna e colo no nosso lar.
E por fim, essa história continua em você. Se você está no fundo do poço, existe uma saída, Cristo. Corra para a Cruz!
Deixe o Ferreiro aquecer o metal da sua vida. Ele não te quebra para te descartar, Ele te quebra para te formar. E, quando chegar a hora do seu anúncio, talvez você não suba num palco. Talvez só erga uma “faixa” dentro da sua casa, diante dos seus. Mas será o suficiente para o céu ler: “Não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim.”